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Sei o que preciso de mudar. Porque não consigo?

“Eu sei o que tenho de fazer. Só não percebo porque é que não o faço.” Esta frase aparece muitas vezes em consulta. Sabemos que precisamos de estabelecer limites, mas voltamos a dizer que sim. Queremos mudar de trabalho, mas adiamos as candidaturas. Sentimo-nos sozinhos, mas recusamos um convite. Percebemos que uma relação nos faz sofrer, mas continuamos à espera de que alguma coisa mude.
Depois de cada tentativa adiada, surge uma explicação simplificada, a de que se deve a falta de vontade, de disciplina ou de coragem. E, com ela, a autocrítica. “Se já percebi o problema, devia conseguir resolvê-lo.”
Mas compreender um comportamento e conseguir alterá-lo são processos diferentes. Podemos reconhecer, com muita clareza, o que nos prejudica e continuar a sentir dificuldade em fazer de outra forma.
Uma parte desta dificuldade torna-se mais compreensível quando perguntamos o que acontece imediatamente antes e depois desse comportamento. Quem evita uma conversa difícil pode ficar com um problema por resolver, mas sentir alívio naquele momento. Quem adia uma candidatura mantém a insatisfação profissional, mas adia também a possibilidade de ser rejeitado. Quem aceita todos os pedidos fica sobrecarregado, mas evita a culpa ou o receio de desiludir alguém.
Esse alívio imediato pode ajudar a manter um padrão, mesmo quando as consequências a longo prazo são dolorosas. O comportamento resolve uma dificuldade do presente e cria, ou prolonga, outra no futuro.
Por isso, uma pergunta útil é: “O que é que esta forma de agir me permite evitar, obter ou preservar?” Nem sempre existe uma resposta evidente. E nem todos os comportamentos têm uma função escondida. Por vezes, há um hábito muito consolidado, falta de recursos, cansaço ou obstáculos concretos. Ainda assim, observar o que mantém uma dificuldade costuma ser mais esclarecedor do que concluir que somos fracos.
Também podemos querer a mudança e receá-la ao mesmo tempo. Uma pessoa pode desejar uma relação e ter medo de perder autonomia. Pode querer estabelecer limites e recear que os outros se afastem. Pode desejar sair de uma situação insatisfatória e sentir tristeza pelo que terá de deixar para trás.
Esta ambivalência faz parte de muitas decisões. Mudar implica aproximarmo-nos de algo que valorizamos, mas pode também exigir perdas, incerteza e desconforto. Mesmo uma mudança desejada pode trazer consequências difíceis.
Há ainda uma diferença entre um objetivo que reconhecemos como nosso e uma exigência que aprendemos a repetir, como por exemplo “Nesta idade, devia estar noutro ponto.” Antes de tentar cumprir esta frase, vale a pena perceber de onde vem. Queremos realmente essa mudança? Ou queremos deixar de sentir que estamos a falhar perante uma expectativa?
Quando o objetivo faz sentido para nós, o passo seguinte é torná-lo concreto. “Quero ser mais assertivo” pode traduzir-se em dizer a alguém que precisamos de tempo para responder. “Quero mudar de trabalho” pode começar por atualizar uma parte do currículo. “Quero conhecer pessoas” pode significar aceitar um convite e ficar durante algum tempo, mesmo que exista desconforto.
Passos pequenos permitem experimentar, observar o que acontece e ajustar. Também ajudam a perceber onde está a dificuldade, seja ela em começar, tolerar a ansiedade, lidar com a reação dos outros ou manter a ação ao longo do tempo. Cada um destes obstáculos pode precisar de uma resposta diferente.
É importante, porém, não transformar tudo numa questão de atitude individual. A precariedade, a falta de tempo, a doença, as responsabilidades familiares ou a dependência financeira podem limitar seriamente as opções disponíveis. Compreender uma dificuldade exige olhar para a pessoa e para as condições em que vive.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a distinguir estes elementos: aquilo que desejamos, aquilo que receamos, os padrões que fomos aprendendo e os obstáculos que precisam de ser considerados. A partir daí, torna-se possível construir uma mudança com sentido e com espaço para tentativas imperfeitas.
Saber o que precisamos de mudar é um ponto de partida. Para conseguir fazê-lo, muitas vezes precisamos também de compreender o que torna tão difícil dar esse passo

