Blog
Como saber se preciso de um psicólogo?

Uma das dúvidas mais frequentes antes de procurar acompanhamento psicológico é aparentemente simples: “Será que aquilo que estou a sentir é suficiente para procurar um psicólogo?”. Muitas pessoas adiam este passo porque consideram que os seus problemas não são suficientemente graves, porque acreditam que deveriam conseguir resolvê-los sozinhas ou porque se comparam com pessoas que parecem estar a passar por situações mais difíceis.
Mas procurar apoio psicológico não exige chegar a um ponto de rutura.
Não é preciso ter uma perturbação psicológica. Ir ao psicólogo não significa necessariamente ter uma depressão, uma perturbação de ansiedade ou qualquer outro diagnóstico.
O sofrimento psicológico existe num contínuo. Podemos estar perante uma perturbação psicológica, mas também perante uma fase particularmente exigente da vida, uma perda, uma separação, dificuldades numa relação, problemas profissionais, questões relacionadas com a sexualidade, baixa autoestima ou simplesmente a sensação de que alguma coisa não está bem. Há ainda pessoas que procuram acompanhamento sem identificarem um problema específico. Sabem apenas que determinados padrões se repetem, que não se sentem satisfeitas com a forma como estão a viver ou que gostariam de se compreender melhor.
Tudo isto pode ser trabalhado em consulta.
Mais do que perguntar apenas “Isto é grave?”, pode ser útil fazer outras perguntas:
- Há quanto tempo me sinto assim?
Um período difícil durante alguns dias não tem necessariamente o mesmo significado que um mal-estar que permanece durante semanas ou meses.
2. Aquilo que estou a sentir está a interferir com a minha vida?
Pode estar a afetar o sono, o trabalho, os estudos, as relações, a sexualidade, a alimentação, a capacidade de concentração ou simplesmente a possibilidade de aproveitar momentos que anteriormente eram agradáveis.
3. Estou a começar a evitar situações por causa daquilo que sinto?
O evitamento é particularmente importante. Podemos começar a deixar de conduzir, sair, viajar, estar com pessoas, falar em público, ter relações sexuais ou enfrentar determinadas situações porque antecipamos ansiedade, desconforto ou sofrimento. A curto prazo, evitar pode trazer alívio. A longo prazo, pode fazer com que a nossa vida se torne progressivamente mais limitada.
4. Estou sempre a tentar resolver o mesmo problema sem conseguir?
Por vezes não nos falta esforço. Falta-nos uma perspetiva diferente. Podemos compreender racionalmente aquilo que acontece e, ainda assim, continuar presos aos mesmos pensamentos, comportamentos ou padrões relacionais.
5. Sinto que já não estou a conseguir lidar com isto sozinho?
Reconhecer isto não significa incapacidade. Significa perceber que os recursos que temos utilizado até agora podem não estar a ser suficientes para aquilo que estamos a viver neste momento.
É muito importante perceber que nem todo o sofrimento precisa de ser eliminado. A Psicologia não pretende transformar todas as emoções desagradáveis em sintomas.
Sentir tristeza perante uma perda, ansiedade antes de uma situação importante, medo perante uma ameaça ou preocupação quando existe um problema real faz parte da experiência humana. Nem tudo é patológico. Nem tudo precisa de tratamento.
Uma parte importante do trabalho psicológico pode passar precisamente por distinguir aquilo que é uma reação humana compreensível daquilo que está a tornar-se persistente, desproporcional ou incapacitante.
O objetivo não é viver sem tristeza, medo ou ansiedade. É conseguir relacionar-nos com essas emoções sem que elas passem a determinar toda a nossa vida.
“Mas há pessoas com problemas muito piores.”
Provavelmente há.
Mas o sofrimento não funciona como uma competição.
O facto de outra pessoa estar a passar por uma situação diferente ou aparentemente mais grave não torna aquilo que sentimos irrelevante. Da mesma forma, não precisamos de esperar que uma dificuldade se agrave para considerar que merece atenção.
Na saúde física, não esperamos necessariamente que uma dor se torne insuportável para procurar perceber o que se passa. Na saúde psicológica, podemos aplicar o mesmo princípio.
Procurar ajuda também pode ser prevenção
A psicoterapia não serve apenas para intervir quando já existe sofrimento intenso.
Pode ajudar a identificar padrões, desenvolver estratégias de regulação emocional, melhorar a comunicação, trabalhar a autoestima, compreender dificuldades relacionais ou lidar com períodos de mudança antes que determinadas dificuldades se tornem mais incapacitantes.
Por isso, talvez a pergunta não tenha de ser apenas:
“Estou suficientemente mal para procurar um psicólogo?”
Pode ser também:
“Há alguma coisa na minha vida que eu gostaria de compreender, enfrentar ou viver de uma forma diferente?”
Se a resposta for sim, essa pode ser, por si só, uma razão legítima para procurar acompanhamento psicológico.

