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Saúde Mental: Em quem estamos a confiar? Da Ciência à Pseudociência

Quando falamos de saúde mental, falamos de saúde. Parece uma afirmação óbvia, mas nem sempre tratamos o tema dessa forma. Perante uma dor persistente, uma alteração cardíaca ou um problema respiratório, tendemos a valorizar a avaliação por profissionais qualificados. Quando o sofrimento é psicológico, porém, ainda existe espaço para explicações e soluções que não exigimos noutras áreas da saúde.
A ciência não tem respostas para tudo, nem é infalível. O conhecimento científico está constantemente a ser revisto à medida que surgem novos estudos e melhores formas de compreender os fenómenos. Essa possibilidade de corrigir aquilo que julgávamos saber não é uma fraqueza da ciência, é precisamente uma das suas principais características.
Na saúde mental, a Psicologia e a Psiquiatria são áreas científicas distintas, mas complementares. A Psicologia estuda o comportamento, as emoções, os pensamentos, as relações e muitos outros processos psicológicos, recorrendo a investigação e a métodos de avaliação e intervenção cuja eficácia pode ser estudada. A Psiquiatria é uma especialidade médica dedicada à saúde mental, com competências para diagnóstico médico, avaliação de diferentes causas para os sintomas e utilização de tratamentos farmacológicos quando estes são indicados. Em muitas situações, o acompanhamento psicológico é suficiente, noutras, a avaliação psiquiátrica é importante; e existem situações em que a articulação entre ambos é particularmente benéfica.
Isto não significa que todos os problemas humanos devam ser transformados em diagnósticos. Tristeza, ansiedade, medo, luto, insegurança ou sofrimento perante acontecimentos difíceis fazem parte da experiência humana. Uma abordagem científica à saúde mental também implica saber distinguir sofrimento humano de psicopatologia e evitar a patologização desnecessária.
A pseudociência torna esta distinção mais difícil porque pode apresentar-se com uma aparência científica. Utiliza termos técnicos, fala de cérebro, energia, trauma, hormonas ou sistema nervoso e, por vezes, oferece explicações muito simples para problemas complexos. O facto de uma explicação parecer convincente, de alguém relatar que determinada técnica “funcionou comigo” ou de existirem testemunhos positivos não demonstra, por si só, que um tratamento seja eficaz.
Também é importante não confundir pseudociência com tudo aquilo que ainda não conhecemos completamente. Há perguntas para as quais a investigação ainda não tem uma resposta definitiva. Dizer “ainda não sabemos” é uma resposta cientificamente legítima. O problema surge quando a ausência de conhecimento é preenchida por certezas que não têm evidência que as sustente.
Na saúde mental, isto pode ter consequências importantes. Uma intervenção sem evidência não é necessariamente inofensiva apenas porque parece natural ou não utiliza medicamentos. Pode atrasar um diagnóstico, prolongar sofrimento, levar alguém a abandonar um tratamento eficaz ou transmitir a ideia de que a pessoa não melhora porque não se esforçou suficientemente, não pensou positivamente ou não “curou” corretamente alguma causa escondida.
Escolher um profissional de saúde mental implica, por isso, olhar para a sua formação e qualificações, perceber se pertence a uma profissão regulada e sentir que existe abertura para explicar o que está a ser feito e porquê. Um profissional não precisa de prometer certezas absolutas. Aliás, deve conseguir reconhecer os limites da sua intervenção e encaminhar para outro profissional quando necessário.
Levar a saúde mental a sério não significa eliminar todos os problemas nem acreditar que a ciência possui uma resposta perfeita para cada sofrimento. Significa aplicar-lhe o mesmo princípio que esperamos das restantes áreas da saúde: procurar compreender antes de concluir, avaliar antes de tratar e escolher intervenções com base na melhor evidência disponível, ajustadas à pessoa que temos à nossa frente. Porque, quando alguém está em sofrimento, uma explicação convincente não é necessariamente uma explicação verdadeira. E cuidar da saúde mental exige mais do que algo que pareça funcionar, exige responsabilidade. Os cursos de “Terapeuta Completo em X dias”, as Terapias e Terapeutas de áreas sem evidência científica e as promessas terapêuticas rápidas, que curam traumas com total facilidade, entre muitos outros exemplos, são sempre exemplos a desconfiar.

